Dando continuidade às minhas reminiscências de como enfrentei, à minha maneira, a ditadura militar no Brasil, outros dois episódios (entre tantos) contribuíram ainda mais para que eu, apesar de bastante menino, percebesse que havia algo de errado e de muito ruim nos ares do país naquela década de 1970.
O primeiro fato foi resultado de tanto ouvir que aqueles comunistas (ou não) que lutavam e enfrentavam os generais no poder eram, “na verdade”, terroristas. Essa era a informação disseminada pela máquina de propaganda ditatorial. Como eu, de certa forma, já havia escolhido um lado, a dos subversivos, os termos comunista e terrorista passaram a ser pra mim adjetivos interessantes, de gente que enfrentava o mal da ditadura militar.
Numa véspera de Natal na primeira metade dos anos de 1970, ganhei do Papai-Noel (mais tarde descobri que o bom velhinho era na verdade o suado salário – soldo – do meu pai) uma moderna metralhadora de brinquedo e um revólver de espoletas, ambos bastante realísticos. No dia seguinte, meu irmão Totonho, armado da minha barulhenta metralhadora de plástico, e eu com o meu revólver estilo cowboy trocávamos os primeiros tiros pelos cantos da casa, numa brincadeira empolgante.
Em meio aos estampidos de espoletas e da ensurdecedora matraca da metralhadora, eu gritava de um lado: “Toma, seu terrorista de meia-tigela!”. E Totonho respondia de pronto: “Vai morrer, seu comunista de araque!”. E gritávamos, a plenos pulmões e convictos, de que eu era o comunista da história e ele o terrorista. Minha mãe, em desespero e quase chorando, tentava nos conter e, ao mesmo tempo, corria para fechar as janelas para abafar nossos gritos de guerra. “Parem com isso! Vocês querem que os vizinhos escutem e nos denunciem? Vão prejudicar seu pai e daqui a pouco vão prendê-lo e a nós todos... Uma família de comunistas e terroristas...”. O medo da truculência da ditadura era grande.
Outro fato ocorreu anos mais tarde, quando presenciei, às escondidas, uma reunião tensa entre os mais velhos da minha família. Vó Dica, tio Reis, tia Zezé, meu pai e minha mãe avaliavam a situação de minha prima Leila Rezende dos Reis que, ainda estudante em São Paulo, estaria envolvida em ações promovidas pelo MR8 (o Movimento Revolucionário 8 de Outubro foi uma organização política marxista que participou da luta armada contra a ditadura militar brasileira). O agravante era que meu tio Reis, pai de Leila, era da Polícia Militar de São Paulo, e poderia ficar implicado ao defender e proteger a filha das garras cruéis da máquina sanguinária dos ditadores de plantão.
Foi daí que a minha admiração por Leila cresceu ainda mais, transformando-se num modelo pra mim. Até segui a mesma profissão: a de jornalista. Leila Reis, um nome importante na comunicação do eixo Rio-São Paulo, tem uma trajetória bem progressista. Só para destacar alguns itens, Leila, por exemplo, foi assessora de imprensa da paraibana Luíza Erundina, então deputada estadual na Assembleia Legislativa paulista. Com o companheiro e também jornalista Julinho de Grammont (que teria sido o criador e idealizador da estrela do Partido dos Trabalhadores, o PT), Leila conviveu nos bastidores com o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.
Júlio de Grammont, aos 46 anos, morreu na madrugada de 26 de novembro de 1998, em um acidente de carro, que capotou na altura do km 27 da Via Anchieta, em São Bernardo do Campo, na Região da Grande São Paulo. Na época, Julinho era assessor de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Ele também foi assessor de imprensa de Lula durante a campanha para a Presidência da República em 1998.
Enfim todos os sinais de que tínhamos de lutar contra a ditadura me eram dados. Mas eu era apenas um menino, não podia fazer muita coisa e só mais tarde, já nos estertores da ditadura militar, pude dar uma contribuição maior a esse enfrentamento. É o que revelarei na terceira e última parte desta sequência de textos sobre como “matei” a ditadura.
(Continua na próxima semana)
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 29 de julho de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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