Artigo: Pum turco do marxista paraibano – Jorge Rezende

Publicado em: 18/09/2026 às 08:59
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A chamada Guerra Fria permanecia pairando sobre a cabeça da humanidade. Naquele início dos anos de 1970, o clima de animosidade entre soviéticos e norte-americanos espalhava no ar desconfianças e incertezas, principalmente, no ocidente, que sofria com as interferências políticas que alimentavam ditaduras e golpes militares, e no leste europeu, onde o comunismo imperava.

Nesse período, Berlim foi o lar forçado de um intelectual paraibano que, para sobreviver e escapar das torturas e perseguições do regime militar brasileiro, foi viver entre o povo alemão. Marxista, o antropólogo e sociólogo Carlos Azevêdo transferiu-se, em 1974, para Berlim, onde continuou seus estudos em Antropologia, Sociologia, História da Arte Primitiva, Arqueologia Clássica e Literaturas Românicas na Universidade Técnica de Berlin (TU).

Nesse período, ele passou a ensinar no Instituto de Estudos Latino-Americanos, da Universidade Livre de Berlim (FU), de 1978 a 1999. Foi docente também da Hochschule Bremen (International Studies of Global Menagement), para ministrar aulas de introdução à cultura brasileira. Devido a sua atividade, Azevêdo transitava com certa facilidade entre os dois mundos germânicos daquela época, o capitalista, a oeste do Muro de Berlim, e o comunista, a leste.

E numa de suas andanças, Carlos Azevêdo foi parar em uma das lojas mais chiques e badaladas do lado capitalista alemão, quando vivenciou de perto o xenofobismo europeu. Ao utilizar um elevador lotado de alemães “puros”, ele viu-se e sentiu-se como um estranho no ninho. Pouco depois de entrar no equipamento, alguém daquela raça pura apregoada por Hitler soltou um pum (eliminação de gases intestinais pelo ânus, que eu particularmente prefiro chamar de peido). O único estrangeiro no elevador era Carlos Azevêdo e, imediatamente, todos viraram os rostos e passaram a olhá-lo com cara feia.

“E não foi um simples pum. Foi daqueles que assoviam”, conta Azevêdo, sem revelar sobre o nível do odor que ficou confinado no ambiente. De acordo com o professor, ele era o único forasteiro e, com a sua pele amorenada e com uma cara e nariz de turco, o dono do pum assoviado só poderia ser dele. “Aguentei firme aqueles olhares incriminatórios. Mas, ao sair do elevador, me virei para eles e vociferei o pior dos palavrões na língua alemã”, desabafa Carlos Azevêdo, ainda hoje com prazeroso sentimento de vingança. O palavrão alemão proferido é um pouco mais denso do que o nosso “vai tomar no...”.

Essa história de xenofobismo, principalmente em um espaço geográfico onde o nazifascismo trafegou sem cerimônias, foi contada por Carlos Azevêdo no início da noite do último dia 31 de agosto, quando do lançamento de ‘Réquiem para uma prostituta e outras crônicas’, recente livro do professor, em evento na livraria da Editora Ideia. A publicação reúne uma coletânea da produção literária de Carlos Azevêdo extraída da sua coluna semanal publicada todas às sextas-feiras no jornal A União, nesta página do Memorial, onde estreou em 2019.

Passado mais de meio século daquele peido no elevador alemão, o xenofobismo continua dando seu ar (fedorento) da graça naquelas bandas. Pois, menos de uma semana do relato de Azevêdo, a Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu a eleição estadual na Saxônia-Anhalt, no leste alemão, e obteve um resultado histórico para o partido de extrema direita. A legenda recebeu cerca de 44% dos votos. Essa votação representa a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que um partido de extrema direita chega tão perto de assumir o governo de um estado alemão.

A imigração está no centro das propostas da AfD. O partido defende regras mais rígidas para a entrada e permanência de estrangeiros na Alemanha, além de ampliar as deportações e adotar uma política de “remigração”, termo usado pela legenda para defender o retorno de imigrantes aos países de origem. A sigla também propõe mudanças nas políticas de integração e medidas mais duras para quem solicita asilo.

Esse tipo de coisa chega a provocar arrepios... E não se trata apenas de um pum.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 15 de setembro de 2026) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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