Artigo: O Pelé do major Coelho – Jorge Rezende

Publicado em: 15/07/2025 às 21:45
Foto

O humor era sua marca registrada. Sempre sorrindo, com comentários agradáveis e observações inteligentes, sarcásticas e engraçadas. Apesar de ser uma pessoa que mal passara pelos primeiros bancos do ensino primário, com dificuldades para a leitura e escrita, e numa época em que não existiam redes sociais, ele sempre demonstrava estar bem informado. De tudo – do passado ou do presente –, sabia um pouco. O suficiente para conversar de igual para igual – e conquistar a simpatia – com qualquer um, do sujeito mais letrado e culto à mais simplória pessoa de sua convivência. Cativava e impressionava a todos.

Numa cidade onde o principal filho ilustre é nada mais, nada menos, do que o Rei do Futebol, é normal que muitos outros negros tricordianos recebam o mesmo apelido: Pelé. E ele era conhecido como o Pelé do major Coelho. Ficou com essa pecha por ter sido o caseiro do sítio adquirido pelo major Coelho assim que se aposentou (quando foi para a reserva do Exército). Esse sítio, às margens do Rio Verde, era bastante aprazível, com uma boa casa, com piscina, um grande terreno com árvores frutíferas e dezenas de canteiros que acomodavam diversidade considerável de verduras, legumes e tubérculos.

Mais do que esses atrativos, o sítio do major Coelho tinha como ponto alto um ceveiro (o mesmo que cevadouro, um lugar onde se põe ceva para a pesca) preparado nas barrancas à beira do rio que limitava os fundos da propriedade. Era formidável pescar ali. Passei boa parte dos meus dias de adolescente nesse ceveiro, até virando noites inteiras pegando em pequenas redes e na base da tríade vara-linha-anzol um bocado de mandis, piabas, lambaris, canivetes, cigarras, cascudos e até dourados... Na maioria das vezes consumidos ali mesmo, cozidos, fritos ou assados em um fogão a lenha improvisado, regados a cervejas e boas cachaças... Era bom demais! Era também um privilégio por ser o melhor amigo de Gílson, um dos filhos do major Coelho. Eu tinha carta branca ao sítio.

O melhor disso tudo era a presença de Pelé. Sempre cuidando da nossa segurança e nos ensinando a pescar. Bastante falante, também nos nutria com suas histórias de vida, mescladas com piadas hilariantes e prosas fictícias, principalmente causos de terror, assuntos místicos e de mistérios. Pelé era completo! Aliás, no sítio, ele não era só o caseiro. Era tudo... zelador, segurança, piscineiro, agricultor, pintor, carpinteiro, eletricista, barqueiro, motorista, “dono-de-casa”, “lavadeira”, cozinheiro... Era acima de tudo amigo e companheiro.

Aprendi muito com o Pelé, cujo nome verdadeiro nunca tive a curiosidade de perguntar. Se um dia ele citou seu nome, confesso que não dei muito a atenção. Pois pra mim ele era o Pelé do major Coelho. Isso bastava. A convivência com aquele negro magro, alto e de voz amaciada, em especial nos finais de semana, durou anos. Essa jornada da minha adolescência terminou quando o major resolveu vender o sítio – não me lembro por quais motivos. E Pelé foi embora. Nunca mais o vi...

Os anos passaram. Minha família adquiriu uma nova casa para onde nos mudamos em meados do início da segunda metade dos anos de 1980. E qual a minha surpresa? Ao lado dessa nossa nova residência, havia uma casa abandonada, em ruínas, e Pelé, sem ter onde morar e afastado de sua família (também desconheço as razões), ocupava o local. Em um dos cômodos em escombros, Pelé mantinha uma cama e um colchão velhos, onde passava as longas noites geladas de Três Corações depois de labutar o dia inteiro fazendo bicos pela cidade.

Tentamos removê-lo do local, mas ele se recusava e dizia que “era feliz” ali. Minha mãe dava uma atenção especial a ele, doando-lhe roupas usadas, cobertores e refeições. Pelé não era mais o mesmo da época do sítio. Pouco conversava, já não sorria tanto e estava afundado na bebida. Tentei convencê-lo a procurar a família e sair do umbral daquela casa em decadência. Mas nada o convencia.

Numa manhã fria de julho, quando a madrugada tricordiana havia beirado o zero grau centígrado, acordamos com uma movimentação intensa na casa-destroço ao lado. Estavam recolhendo o corpo de Pelé. Após mais um dia ingerindo suas pingas, Pelé foi dormir para nunca mais acordar. A hipotermia matou o meu amigo do sítio do major Coelho.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 15 de julho de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

Comentários: