Artigo: Morri e não sabia – Jorge Rezende

Publicado em: 26/09/2026 às 21:20
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Ainda iria completar 15 anos quando deixei minha cidade, Três Corações, no Sul de Minas, para estudar no Colégio Militar de Belo Horizonte. Morava no quartel. No início, foram momentos muito difíceis. Ficar longe da família, conviver com pessoas que mal conhecia e passar por uma brusca mudança de vida. Deixar uma escola estadual do interior mineiro para viver rígidas normas militares numa capital já era duro demais, imaginem em pleno estertores da ditadura militar. Eu, com comportamentos e convicções comunistas, comi o pão que o diabo amassou... com o rabo.

Quando meu pai podia, ele me enviava uns trocados pra eu comprar umas besteiras e, dentro das possibilidades, utilizar as minhas poucas folgas no quartel para ir ao cinema, no Centro de Belo Horizonte. O dinheiro era retirado na agência dos Correios que funcionava dentro da unidade militar. Era por ordem de pagamento. Naquela época, eu não tinha conta bancária, não existiam caixas eletrônicos e Pix era algo inimaginável. Ficava numa alegria tremenda quando Jarbas, que comandava a agência dos Correios, lia o meu nome escrito, de punho pelo meu pai, no envelope padronizado da Caixa Econômica Federal utilizado para os envios das ordens de pagamento.

A felicidade tomava conta de mim. Não somente pela possibilidade de ir ao cinema ou fazer umas extravagâncias na cantina do quartel, comendo coxinhas, pedaços de pizzas e pastéis com boas talagadas de Coca-Cola bem gelada. Com os parcos trocados, surgia a possibilidade de viajar para a minha casa e estar junto com meus familiares e amigos, e ainda curtir as discotecas em moda na minha cidade: Junni’s, Escadaria ou Montese. Mesmo que essa viagem durasse apenas “dois dias de festa”. Geralmente, para viajar de Belo Horizonte a Três Corações, pegava o ônibus na rodoviária numa sexta-feira, às 13h, e, depois de cinco horas na Rodovia Fernão Dias, chegava ao meu Sul de Minas. Retornava para o Colégio Militar no ônibus da meia-noite do domingo. Assim, madrugava de volta à caserna, sonhando com a próxima viagem.

Sempre avisava minha mãe, por cartas (que demoravam de dois a três dias para chegar ao seu destino), quais os finais de semana em que viajaria para Três Corações. Certa vez, numa semana em que eu havia programado uma viagem, no último momento resolvi não ir passar o final de semana em casa. E não tinha como avisar, já que celulares não existiam – ainda era uma coisa de ficção científica. Do mesmo modo era a Internet. A gente nem imaginava o que seria isso. Também não tinha como telefonar, pois não tínhamos linha telefônica em casa. Aparelho telefônico era quase um luxo.

Naquela sexta-feira em que não embarquei na rodoviária parecia transcorrer dentro do normal. À noite, por volta das 20h, o sargento-de-dia foi me acionar no alojamento do quartel, alertando que eu deveria comparecer ao saguão do prédio do comando do Colégio Militar, onde havia um telefone público. Seria uma emergência. O sargento ordenou-me para que aguardasse, pois, minha mãe iria telefonar a qualquer momento. Fiquei um tanto apavorado e apreensivo. Por que minha mãe ia me telefonar àquela hora? Para fazer isso, ou ela estaria se servindo do aparelho telefônico de algum vizinho “mais rico” ou se deslocado até o Centro da minha cidade para utilizar o Posto Telefônico, cuja ligação era cobrada por minuto. Então, deveria ser algo grave. Pensei em tudo que era ruim naquele momento.

O telefone tocou e atendi minha mãe. Ela em prantos, dando graças à Deus porque estava falando comigo. Ao mesmo tempo, começou a me esculhambar, do porquê eu não havia avisado que não iria viajar mais. E ela também explicou que, uma hora antes, no MGTV, telejornal local da Rede Globo equivalente ao JPB daqui da Paraíba, havia anunciado que o ônibus que eu viajaria, da Empresa Nossa Senhora Aparecida (Ensa), que seguia de Belo Horizonte a Lambari – e que passava por Três Corações –, havia capotado e que vinte e duas dos cerca de quarenta passageiros haviam morrido. E o pior: o telejornal passou uma lista dos passageiros mortos; e entre eles havia um Jorge Luís Rezende. Uma coincidência enorme! As diferenças eram que o meu homônimo era natural de Lambari e o meu nome completo é Jorge Luís Rezende do Carmo. Segundo minha mãe, a comoção na minha rua foi grande. Gente de todo o bairro não parava de chegar na minha casa para as condolências.

Essa experiência mexeu comigo. Me senti importante até fiquei lisonjeado. Passei a acreditar que, quando morresse, talvez iria fazer falta a algumas pessoas... Será?



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 22 de setembro de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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