Artigo: Jiboia, onça e trilhas – Jorge Rezende

Publicado em: 13/09/2025 às 02:00
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Para complementar o texto da semana passada – ‘Maria do Sorvete avisa que morreu’ –, quando listei as afinidades de gostos e comportamentos entre mim e a primeira ex-esposa (Joana Darc), ressalto agora uma característica importante inerente a nós dois: somos contadores de memórias de vida que permeiam o surrealismo, mas que foram fatos reais. Todavia, muita gente duvida e acha que são “histórias da carochinha” ou “mentiras de pescador”.

Tenho um bocado de enredos de vida que, contados em tempos em tempos a amigos, provocam espantos, desconfianças, observações debochadas e até colocados em dúvidas, sendo tachados de invencionices. Porém, não me chateio, nem fico abalado com as brincadeiras dos amigos e amigas. Até alimento o bullying deles. Torno a coisa em momentos de descontração e convivência social. Que digam o meu compadre Agê Santana e o saudoso Neno Rabellho acerca da história em que eu, aos dezesseis anos, defendi um pênalti cobrado pelo jogador Nelinho (aquele lateral-direito da seleção brasileira e que atuou pelo Cruzeiro e Atlético Mineiro); ou do episódio em que conheci, no início da década de 1980, a dupla Baby Consuelo e Pepeu Gomes, que amanheceu sentada ao meio-fio da calçada de minha casa...

O bullying perpetrado pelos dois nunca me intimidou e nem me sinto violentado, agredido nas minhas verdades. Ao contrário: sempre dei combustível à brincadeira. O que importa é que os fatos ocorreram em minha vida, acreditem ou não. É nesse ponto que Joana Darc passa por situações semelhantes às minhas. Histórias de vida dela que muita gente duvida ou considera exageradas. E para exemplificar essa sua “sina gêmea à minha”, vou relembrar dois episódios sempre contados por ela.

Para contextualizar, Joana Darc nasceu em Dom Aquino, no Mato Grosso, e passou boa parte de sua infância e pré-adolescência “saltitando” entre diversas cidades do próprio Mato Grosso e do estado de Goiás, até fixar residência em Três Corações, no Sul de Minas Gerais, onde nos conhecemos, noivamos e casamos, antes de virmos para a Paraíba. O município de Dom Aquino, onde ela viveu até aos seis anos de idade, está localizado no Vale do Rio São Lourenço, distante a 172 quilômetros da capital, Cuiabá, e hoje registra pouco mais de oito mil habitantes. Já a cidade de Juara, também no Mato Grosso e onde as duas histórias a seguir se passam, está na região do Vale do Arinos, tem cerca de 35 mil habitantes e situa-se a 640 quilômetros de Cuiabá.

Quando Joana tinha 11 anos de idade e morava com a mãe, o pai e os seus quatro irmãos (José Carlos, Joel, Joelma e Sônia Maria) na zona rural (para não dizer floresta) de Juara, ocorreu um episódio que geralmente ocorre nos cinemas, em filmes enlatados norte-americanos como o esquisito ‘Anaconda’. Ela conta que toda a família teria ido a uma festa na casa do seu avô, também instalada no meio do mato. À noite, retornando para casa, no momento em que a família atravessava um córrego, Joana, que era a última da fila indiana, teve as pernas “abraçadas” por uma imensa jiboia. Ela foi salva pelo pai que, armado com revólver e espingarda, atirou na água, próximo à cobra, que assustada “desistiu” de jantar a então minha futura ex-mulher. “Conto essa história e ninguém acredita. Acham que eu invento”, lamenta Joana.

A segunda história que envolve animais na vida de Joana também ocorreu na região de Juara. Ela e o irmão José Carlos estudavam em uma escola rural e precisavam andar quilômetros a pé por uma trilha em meio à floresta. Acordavam bem cedo e, depois que a mãe preparava suas merendas (um pedaço de bolo feito na brasa e um saquinho plástico reaproveitado cheio de pipoca caseira), eles saíam para a longa caminhada até a escola.

E ela mesmo conta: “Quando a gente estava atravessando a mata, demos de cara com uma onça que tinha acabado de dar cria, impedindo a nossa passagem. Chorando, ficamos sentados a uma certa distância, na esperança de que a onça resolvesse sair do local”. Joana continua: “Pegamos o nosso lanche, nossa pipoca, nosso bolo, e passamos tudo para a onça. Ela comeu tudo, mas não saiu do caminho. Não voltamos pra casa com medo de apanharmos, pois minha mãe não ia acreditar e acharia que queríamos matar a aula”.

Com fome, os dois colheram e comeram o cacau de um pé do fruto que estava próximo. Esperaram dar meio-dia e, com o retorno de outros estudantes da mesma escola, puderam voltar pra casa. Mas os dois perderam a prova que estava marcada para aquele dia.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 9 de setembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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