Como sempre, exatamente no mesmo horário. Ao meio-dia e meia, o Aero Willys na cor verde-piscina, ano 1971, dirigido por um chofer trajando indumentárias como nos filmes hollywoodianos dos anos de 1950, estaciona em frente aos portões do grupo escolar mais tradicional da cidade. Uma das portas traseiras do veículo se abre e ela desce como pluma ao vento e a delicadeza de uma princesa ao deixar sua carruagem. Incessantemente linda! Os longos cabelos castanhos ainda apresentando resquícios de um banho recém-tomado emolduram aquele corpo quase dividido ao meio por uma cintura fina e mais alvo do que uma manhã de neblina.
E eu ali novamente, num dos cantos do sopé da escadaria de entrada da escola, me deliciando com a visão apaixonante que tinha por Andreia. Todo santo dia, esforçava-me para chegar mais cedo antes do início das aulas. E valia a pena... Era o santo remédio diário para o meu coração de menino. Vê-la chegar, me bastava. Era um amor carnal mesclado a um amor platônico. Era a visão do paraíso assistir a chegada magistral daquela menina, fitá-la descer do carro e subir as escadarias quase nas pontas dos pés, bailando a saia do uniforme escolar, deixando-me ver um pouco mais daquelas longas pernas...
Foi o meu primeiro amor. Uma paixão louca que nunca revelaria a ninguém, nem à própria Andreia. Ela nunca soube do meu amor. E eu nunca tive coragem de revelá-lo. Todavia, contentava-me com o meu sentimento solitário. Nunca conversamos. Nosso diálogo não passava de esporádicos “oi” – quando eu tinha coragem – e na maioria das vezes ela nem respondia... Sentia-me um tanto invisível aos vívidos olhinhos quase negros e adornados por aquela perfeita franjinha de Andreia.
Até então não tivera coragem em abordá-la e falar da minha paixão. Nem em sonho... Sentia-me muito pequeno perto dela. Sensação de estar a centenas de quilômetros de Andreia, semelhante a um sapo à beira da lagoa a contemplar a luz inacessível da Estrela Dalva. Um total sentimento de inferioridade. Primeiro, porque ela era muito bonita e eu sempre fui desprovido de beleza. Aquela história: Andreia era muita areia para o meu caminhãozinho.
Meu complexo de cachorro vira-lata ganhava proporções ainda maiores quando me lembrava das nossas condições socioeconômicas. Ela era rica, bastante rica. Da elite tricordiana. Integrava uma das famílias mais bem aquinhoadas da nossa cidade. O pai, um empresário e fazendeiro bem sucedido, com excelentes relacionamentos no meio político e nas casas de poder de Minas Gerais, naquela época ainda era o diretor-geral da fábrica da Nestlé, em Três Corações. A mãe, também oriunda de uma rica família de fazendeiros e comerciantes, “simplesmente” era a diretora do grupo escolar onde minha Tia Alice era servente de limpeza e eu e Andreia dividíamos espaços em uma sala de aula. Namorar a filha da diretora? Na minha cabeça seria um insulto de classe e, é claro, Andreia não iria dar bola pra um paupérrimo vassalo.
Os dias foram passando. As semanas se acabando. Os meses sendo arrancados do calendário de parede. Já era quase fim do ano e tomei a decisão de, enfim, me revelar. E numa manhã de fim de novembro, aproveitei a hora do recreio, deixei a minha timidez de lado, enterrei todo o meu medo das nossas diferenças de mundos, e decidi abordar Andreia e falar do meu amor por ela.
De costas para mim, Andreia estava à porta da sala de aula conversando com uma amiga de classe. Eu, nos fundos do ambiente, foquei na minha missão e segui em sua direção, disposto a botar tudo pra fora. Quando estava a poucos centímetros do meu amor, prestes a tocar em seu delicado ombro, Homero, o “aluno-capeta” da turma, em suas costumeiras correrias, me empurrou e fui com toda força pra cima de Andreia, que desequilibrou-se e caiu pra fora da sala de aula, batendo com força a testa no piso acimentado.
Vendo a minha amada estatelada ao solo, com a testa já ensanguentada, fui a seu socorro e com a intenção maior ainda de implorar o seu perdão e dizer que a culpa não tinha sido minha; e sim daquele encapetado Homero... Mas nem deu tempo. Chorando de dor, Andreia fixou aquele olhar de ódio em mim e gritou a todos os pulmões: “Tire as mãos de mim, seu esqueleto humano!”. De fato, eu era muito magro, mas esqueleto humano? O sentimento foi de humilhação, de desprezado e de rejeitado. Ali morreu o meu primeiro amor... E tive vontade de matar Homero.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 8 de julho de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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