Artigo: Espírito da cigana – Jorge Rezende

Publicado em: 21/10/2025 às 21:20
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Fazia tempo que eu não ia para aquelas bandas da cidade. Aliás, até ia, mas sempre de passagem. Um bairro simples, com habitantes comuns, que num tempo mais remoto foi de extrema importância para o desenvolvimento da cidade. Nos primórdios do século XX, era nesse local que pulsava a economia do município, abrigando a chamada Feira de Gado de Três Corações.

O bairro, hoje denominado de São Jerônimo, viveu o auge da atividade de sua feira de gado numa época em que a criação de vacas e bois de quase todas as regiões de Minas Gerais confluía em direção a Três Corações, no sul do estado, para ser posteriormente comercializada e direcionada aos maiores centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Atualmente, Três Corações permanece com destacada participação na economia mineira por meio do seu rebanho leiteiro e gado de corte, sendo o gado leiteiro um dos melhores do estado. Todavia, o sucesso da Feira de Gado ficou no passado, restando apenas resquícios de sua atividade, como a histórica Ponte dos Boiadeiros, construída sobre o Rio Verde em uma região esteticamente favorecida. Ela foi inaugurada em 1924, sendo um arrojo de engenharia em sua época. Restaurada, hoje é um marco do “ciclo do gado” na região. O Bairro de São Jerônimo cresceu e se expandiu a partir da Feira de Gado.

Naquele dia, em meados da virada de 1985 para 1986, eu retornava ao São Jerônimo acompanhando a minha namorada e a mãe dela. Eram poucos dias de namoro e nem passava pela minha cabeça que as duas iriam fazer parte da minha vida por muito mais tempo: futuras esposa e sogra. E acompanhei as duas nessa ida ao bairro, atendendo a um convite-pedido da minha hoje ex-primeira-sogra. Íamos visitar “uma cigana” para uma consulta solicitada por minha futura sogra.

Achei estranho e algo distante das minhas crenças e hábitos. Mas fui. Não ia fazer desfeita, principalmente num início de namoro, quando a intenção é se enturmar com os familiares da então enamorada.

Descemos do ônibus e caminhamos em zigue-zague por ruas que nunca havia estado antes. Ao chegar em frente ao que parecia uma vila de casas, entramos e passamos por um corredor bem arrumadinho e enfeitado por pés de comigo-ninguém-pode e espadas de São Jorge... Aliás, muita espada de São Jorge! Paramos na última casa onde uma mulher morena, magrinha e aparentando meia idade já nos aguardava na porta.

Entramos e logo percebi que nada no local lembrava o que seria a residência de uma cigana. Fiquei pensando: será que é mesmo uma cigana? E ciganos não são nômades, vivem em tendas? A mulher se dirigiu a um cômodo e voltou descalça e toda paramentada de cigana, com um brilhoso vestido que misturava o vermelho, o roxo e o verde; lenço na cabeça; e uma quantidade enorme de colares e anéis que imitavam prata e ouro. A namorada e a mãe entraram em outro quarto com a “cigana” e fiquei na sala aguardando aquela consulta. No íntimo estava incomodado e me perguntava: o que estou fazendo aqui? Como podem acreditar em uma “cigana”?

Passados cerca de quarenta minutos, a cortina de contas se abre e a minha namorada fala para eu entrar, informando que a “cigana” queria falar comigo. Surpreso, atendi ao chamado, entrei no cômodo e descobri que a mulher não era mesmo uma “cigana”. Era uma médium e dizia estar incorporada pelo espírito de uma cigana. Pegou em minha mão e disse apenas uma revelação: “Você viverá para ser pai de seis filhos”.

Saí dali quase indignado, mas morrendo de vontade de cair na gargalha por aquela adivinhação vinda de uma “picareta travestida de cigana”. No auge dos meus vinte anos de idade, minha convicção era de que talvez nunca me casaria na vida. E filhos, nem pensar! Eu dizia que não gostava de crianças e nunca seria pai. O tempo passou, me casei com aquela namorada e tivemos apenas dois filhos. E eu lembrava da história com o prazer de dizer que a “cigana” errou nas contas.

Tempos depois, veio o meu segundo casamento, com o fruto de uma única filha. Mais um tempo decorrido, no terceiro casamento, mais duas filhas. E eu me gabava internamente: a cigana errou, só foram cinco... Quando eu achava que a “picaretagem do espírito da cigana” estava concretizada, veio o caçula em 2012. Me convenci da previsão feita há quarenta anos e hoje fico a lamentar: bem que a “cigana” deveria ter previsto que eu ficaria rico...



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 21 de outubro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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