Acredito que colocar apelidos é algo inerente ao ser humano em qualquer lugar do planeta. O brasileiro aparenta ser bom nisso. Não importa a região. Em todos os estados da federação, seja na Paraíba, no Rio de Janeiro ou em qualquer cafundó deste país, lá está uma multidão de cognomes. Porém, tenho a impressão de que em Minas Gerais, principalmente nas cidades do interior, apelidar pessoas com alcunhas inusitadas é uma regra cultural.
Isso é levado tanto a sério que duas cidades mineiras – Cláudio, localizada na Região Centro-Oeste do estado, e São Domingos do Prata, na Região do Vale do Aço – disputam o título de “Cidade dos Apelidos”. Numa busca rápida na Internet, pode-se verificar que houve um tempo em que 20 dos 25 mil habitantes de Cláudio eram conhecidos por apelidos, com direito a uma lista telefônica própria (quando ainda se confeccionava esses objetos de consulta), com alcunhas como Fogoió, Balula, Capado, Chupetão, He-Man, Cafuringa, Boneca, Miúdo...
Na cidade de São Domingos do Prata, o fenômeno se repetia em uma lista telefônica especial, chegando ao ponto de quase ninguém se lembrar e nem usar o nome de batismo dos conhecidos. A tradição é tão forte em muitas cidades mineiras que o apelido substitui completamente o nome verdadeiro da pessoa, sendo necessário constar em registros oficiais de falecimento para que os habitantes locais saibam quem morreu.
Na minha cidade natal, Três Corações, não é diferente. Começando pelo mais renomado personagem da cidade: Édson Arantes do Nascimento, mais conhecido pelo apelido de Pelé. Aliás, antes de Pelé, seu apelido era Dico, como era chamado pela família e amigos próximos. O apelido foi dado por sua avó, Ambrosina, ainda na infância em Três Corações. Já o Pelé surgiu quando criança em Bauru, interior de São Paulo, ao tentar pronunciar o nome de seu goleiro favorito, “Bilé”, do time onde seu pai jogava. A pronúncia saía como “Pilé” ou “Pelé”. O próprio pai de Pelé ficou conhecido pelo apelido de Dondinho.
Ainda no mundo do futebol, Três Corações revelou Alex Muralha (aquele mesmo “massacrado” pela torcida do Flamengo), Marco Antônio Cipó e um dos melhores goleiros que eu vi jogar no Atlético Tricordiano: Guelo, uma corruptela de “magrelo”, devido à magreza extrema desse atleta. Na política tivemos o prefeito Gordo Dentista e o vereador mais longevo da história da minha cidade: Emílio Boca Rica (em alusão aos seus dentes de ouro).
Convivi ou conheci vários apelidados mais conhecidos do município: Paulo da Vó, Abacaxi, Luiz Nervoso, Gambá, Zezinho Guerreiro, Beronha, Caiu na Poeira, Marcola, Maria Codorna, Frango, Pulga, Carneiro, Lagartixa, Amolador de Faca, Verme Orelhudo, Lombriga, Rascunho, Caixa Preta, Dito Paguela (meu cunhado, casado com a minha irmã mais velha), entre outros tantos, como Ponto e Vírgula (por andar mancando) e Paçoca, que antes era chamado de Amendoim, mas teve essa evolução no apelido, feito Pokémon, depois que levou um tombo e ficou todo quebrado.
O mais engraçado de todos foi Chico Morto, um jovem, gente boa e trabalhador, que morava no bairro da minha primeira ex-sogra, mas que, infelizmente, enveredou pelo mundo da cachaça. Ganhou esse apelido porque, quando extrapolava nas doses de pinga, caía pelos cantos, parecendo estar morto e só acordava no dia seguinte.
Certa vez, ele chegou em alto estado de embriaguez no bar que minha sogra tinha em sociedade com a irmã. O estabelecimento já estava fechando e minha sogra, penalizada pelo estado de Chico Morto, que passara o dia todo bebendo, sem nada comer, preparou um enorme prato com mocotó para o rapaz. Ainda com o prato pela metade, “bateu na fraqueza”, Chico Morto começou a suar em demasia, empalideceu, revirou os olhos e caiu feito morto ao chão.
Foi um alvoroço. O povo que estava por perto começou a gritar que Chico Morto tinha morrido. Minha então sogra, já com remorso pela “caridade mal dada”, começa a ligar para possíveis socorristas, até para a polícia. Mas ninguém leva a sério, achando que era um trote: como iam socorrer uma pessoa de nome Chico Morto?
A notícia de que Chico Morto havia morrido se espalhou rápido pelo bairro. Ele não foi socorrido, mas Chico Morto não morreu – um alívio para a minha ex-sogra. Se recuperou e ainda passou um bom tempo curtindo os bares da cidade, “vivinho da silva”.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 14 de abril de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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