Não sei ao certo quando comecei a me envolver com os sete pecados capitais. Também não sei se foram eles que me encontraram ou se fui eu quem tropeçou neles caminhando pela orla do Cabo Branco. Só sei que, de uns tempos para cá, nos tornamos quase inseparáveis, como aqueles casais que vivem brigando, mas nunca se separam.
A verdade é que os pecados caminham conosco o tempo inteiro. Acordam antes mesmo do despertador, sentam-se à mesa do café, entram no ônibus lotado, batem ponto no trabalho, participam das reuniões, respondem mensagens no celular e se deitam ao nosso lado quando a noite chega.
Para mim, a preguiça é sempre a primeira a aparecer: “Só mais cinco minutinhos”, que rapidamente viram dez, adiando o momento de colocar a alma de volta no corpo para mais uma semana de corres, lutas e batalhas. Agora, com as chuvas chegando à capital paraibana, o friozinho de 22 graus e a umidade beirando os 90%, até o pecado parece mais compreensível e muito mais agradável.
Da preguiça morna da cama, salto direto para a ira. Ela surge nos primeiros raios de sol, escondida na buzina no trânsito, no engarrafamento da Epitácio Pessoa antes mesmo das sete da manhã. E então descubro que a ira mora ali, sentada confortavelmente no banco do carona.
Chego em casa, abro o celular e a vaidade assume o comando. Passo meia hora escolhendo a foto ou o filtro perfeito para os stories, apenas para parecer que minha vida é mais interessante do que realmente é. E é justamente nesse instante, entre uma postagem e outra, que a inveja me cutuca: vejo gente exibindo verão europeu, praia em Noronha, resort em Maragogi, enquanto sigo aqui pagando boletos e sonhando, no máximo, com um São João no interior.
Da inveja, passo direto para a gula nos fins de semana. Tudo começa inocentemente, com “só uns petiscozinhos” para acompanhar o vinho. Quando percebo, a mesa já está tomada por castanha de caju torradas, queijos e aquele antepasto de berinjela que a gente promete comer “só um pouquinho”. A garrafa que deveria durar a noite inteira desaparece antes das oito. E termina sempre do mesmo jeito: calça apertada, botão discretamente aberto e aquele juramento solene de que “a partir de segunda-feira eu não bebo mais”.
Então chega a conta dos petiscos e do vinho, e a avareza entra em cena. Fazemos cálculos mentais, dividimos cada centavo, reclamamos baixinho que “tá caro pra caramba” e ainda guardamos o restinho da garrafa para levar para casa e colocar na geladeira “para amanhã”, como se fosse um vinho raríssimo.
Os pecados não vivem distantes, nem escondidos em algum inferno imaginário. Eles moram conosco, da hora em que abrimos os olhos até o instante em que tentamos dormir em paz.
Todos os dias, o jornal fala de economia, educação, cultura e política. Mas nunca vi uma coluna dedicada a falar abertamente dos sete pecados capitais no cotidiano. Talvez porque eles não estejam apenas nas manchetes. Estão no congestionamento da BR-230, nas imediações do Bessa, na preguiça das manhãs chuvosas, na mesa de vinho de um sábado qualquer, no feed infinito do Instagram e, sobretudo, dentro da nossa própria casa.
São tão nossos, tão paraibanos, tão profundamente humanos, que nem precisamos assistir ao noticiário para saber que existem.
Basta acordar. Basta viver.
Fonte: Espaço PB – Giovanna Barroca (giovannabarroca@gmail.com) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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